20 de abr. de 2026

Com a IAG estamos economizando tempo ou apenas mudando o tipo de trabalho? O perigo para os professores iniciantes


A promessa que ouvimos os professores o tempo todo da indústria é que a IA vai nos livrar das "tarefas tediosas" (planos de aula, feedbacks, burocracia) e nos devolver até 6 horas por semana. Mas será que é isso mesmo que está acontecendo?

Li hoje um estudo sueco muito interessante que dá nome ao que muitos de nós estamos sentindo na pele, o "trabalho de reparo e manutenção" que temos que fazer revisando os produtos gerados pela IA (Fixing teachers’ problems? Exploring teachers’ repair and maintenance work around generative AI technologies é o título original do artigo que pode ver aqui ou na referência completa no final deste texto). 

Chamou a minha atenção este estudo, porque esse aumento no trabalho de verificação e ajuste é um tema que venho falando com alguma frequência neste blog. Fiquei sabendo da publicação do artigo  pelo alertas do Google Acadêmico, pois sigo um dos autores, o Neil Selwyn.  

O que os pesquisadores descobriram em entrevistas com 28 educadores suecos de cinco escolas é que, em vez da IA trabalhar para nós, nós estamos trabalhando dobrado, garantindo que os resultados da IA sejam funcionalmente e pedagogicamente adequados. 

Podemos ver várias dimensões nesse trabalho de reparo que o docente precisa fazer.

Trabalho de reparação sobre o conhecimento (em relação com os vazios de instrução): Os professores precisam intervir nos resultados da IA para garantir a precisão do conteúdo e o alinhamento com os objetivos pedagógicos e o currículo específico, algo que a IA frequentemente falha em discernir.

Ainda relacionado com esse tema, um aspecto que achei muito interesante é sobre a noção de propriedade ou domínio do professor sobre o conteúdo que ensina:

[...] tema recorrente entre os entrevistados foi a importância de ter um conhecimento sólido da própria disciplina ao utilizar materiais gerados por IA. [...] “Não posso pedir ao sistema, cinco minutos antes da aula: ‘crie uma aula sobre isso’ – e depois entrar na sala e dar a aula sem saber nada sobre o assunto”. Sentir um senso de propriedade sobre o material [...] é importante. Essa noção de “propriedade” sobre o material apresentado aos alunos foi central em muitas reflexões, sinalizando a importância de manter o controle profissional sobre o conteúdo da sala de aula. Isso foi visto como algo que permite aos professores justificar e endossar os materiais que utilizam – com base em seu próprio conhecimento e julgamento profissional –, mas também usá-los de forma adequada na sala de aula (Ljungvist; Sonesson; Selwyn, 2026, p. 6).

Trabalho de reparação em relação com o conhecimento do aluno (assegurando seu engajamento com a aprendizagem): O planejamento de aulas via IA carece de consciência situacional. Professores experientes precisam ajustar o material para atender às necessidades individuais, personalidades, conhecimentos prévios de seus alunos e diferenças de cada turma, algo que a IA "que nunca esteve na sala de aula" não consegue prever.

Nosso "toque humano" é insubstituível. Um plano de aula gerado pela IA pode até parecer bonito, mas ele não sabe que "João" não gosta de falar em público ou que a turma "B" rende mais com atividades curtas. Esse conhecimento situado e a percepção da dinâmica do grupo são coisas que a IA simplesmente não tem. 

Trabalho de reparação em relação com as relações sociais do professor com seus alunos: O fornecimento de feedback e avaliação é visto como uma prática relacional e ética. Muitos professores resistem ao uso da IA nessas tarefas por considerarem que ela é incapaz de comunicar cuidado, empatia e reconhecer as histórias de vida e identidades dos alunos. 

Essas preocupações ficaram mais evidentes quando os professores descreveram o uso da IA Gerativa para dar feedback aos alunos, talvez porque o feedback envolva não apenas orientar a aprendizagem, mas também demonstrar cuidado e valorizar os esforços dos alunos (Ljungvist; Sonesson; Selwyn, 2026, p. 7).  

Isto não é apenas um trabalho superficial de correção de carências ou  problemas encontrados.

Os tipos de trabalho humano relacionados às ferramentas de IA Generativa descritos em nosso artigo são de se esperar, especialmente se abordarmos a IAG como um entrelaçamento entre humanos e tecnologia, em vez de uma solução tecnológica simples e pronta. [...] a importância de nossas descobertas não reside na mera presença desse trabalho, mas em reconhecer sua complexidade e significado, e em admitir como ele tem sido marginalizado nas discussões educacionais dominantes e nas narrativas predominantes sobre o uso da IAG pelos professores (Ljungvist; Sonesson; Selwyn, 2026, p. 8).

É fundamental reconhecer a dimensão profissional e intrinsecamente humana do trabalho que os professores realizam para tornar os resultados da IA Gerativa utilizáveis em contextos pedagógicos.  

Outro achado crucial é que grande parte do trabalho de reparo depende do conhecimento tácito e experencial do professor. Esse tipo de saber é intuitivo, incorporado e impossível de ser codificado em prompts ou reduzido a dados de treinamento de IA.

Sabe aquela intuição que o docente usa para decidir algo em segundos durante a aula? É o seu conhecimento tácito. O estudo mostra que temos um repertório imenso de saberes que "nem sabemos que sabemos" e que, por isso, nunca conseguiremos colocar em um prompt.

Os autores defendem que o conhecimento tácito dos professores deve ser protegido como uma fonte de autonomia e identidade, resistindo a tentativas de transformar o ensino em um processo puramente baseado em dados. 

O feedback é sobre cuidado, não apenas dados. Muitos dos professores entrevistados sentem que deixar a IA dar feedback é quase antiético. Feedback exige empatia, conhecer a história de vida do aluno e saber quando ser "humilde" na correção para incentivar o estudante, algo que a máquina não consegue replicar.

No fim das contas, o que o estudo defende é que esse esforço que fazemos para "consertar" o que a IA entrega não é uma falha nossa, é o próprio exercício da nossa profissão. Esse "trabalho invisível" de ajuste e personalização é o que garante que a tecnologia seja realmente útil na educação.

Não se trata de ser contra a tecnologia, mas de proteger a nossa autonomia e valorizar o que nos torna professores: o julgamento profissional e o afeto. Afinal, ensinar é muito mais do que processar dados! 

Os resultados demonstram a necessidade de repensar quais formas de IA realmente beneficiam a educação e quais devem ser resistidas, priorizando ferramentas ou ações que apoiem a colaboração e a empatia em vez de apenas a eficiência técnica 

Antes de finalizar, quero chamar a atenção agora sobre os riscos para os professores iniciantes que também aparecem no texto:

- Incapacidade de identificar perspectivas ausentes: Professores experientes alertam que os resultados da IA costumam parecer "muito bons" superficialmente, o que pode levar um docente iniciante a aceitá-los sem perceber que perspectivas pedagógicas cruciais podem estar faltando.

- Dificuldade em reconhecer falhas pedagógicas: O estudo observa que um professor novato pode não reconhecer "armadilhas" em planos de aula gerados por IA, como uma aula com excesso de conteúdo informativo (overloaded lecture). O perigo aqui é que, sem esse discernimento, os alunos acabam sendo submetidos a uma experiência de aprendizado ineficaz ou "terrível".

- Dependência de uma IA sem "consciência situada": Como o professor recém-formado ainda está desenvolvendo sua sensibilidade para as dinâmicas de sala de aula, ele pode ter mais dificuldade em realizar o necessário "trabalho de reparo". Professores veteranos conseguem prever que certas sugestões da IA "nunca funcionariam" com um grupo específico de alunos, uma intuição baseada em anos de prática que o iniciante ainda não possui.

- Riscos à identidade profissional e autonomia: O estudo sugere que a crescente onipresença dessas ferramentas pode moldar a identidade dos futuros professores de forma problemática. Há uma preocupação de que a formação docente precisa criar espaços críticos para discutir como o trabalho em ambientes "infundidos por IA" afetará o crescimento profissional e a autonomia desses novos educadores. 

Em suma, o perigo reside no fato de que a IA pode parecer um "atalho" atraente para quem está começando, mas ela carece da experiência incorporada e situada que é fundamental para validar e ajustar o conteúdo para a realidade complexa e imprevisível de uma sala de aula real. 

O que acharam destas descobertas dos autores Ljungvist, Sonesson e Selwyn? Por sua vez, vocês estão sentindo que a IA está ajudando ou que estão gastando mais tempo revisando e "reparando" o que ela produz? Sei que a resposta é relativa, mas vale o alerta.

Referência utilizada

LJUNGQVIST, Marita; SONESSON, Anders; SELWYN, Neil. Fixing teachers’ problems? exploring teachers’ repair and maintenance work around generative AI technologies. Discourse: Studies in the Cultural Politics of Education, p. 1-12, 2026 online first.
https://doi.org/10.1080/01596306.2026.2657793


9 de abr. de 2026

MEC Idiomas: nova plataforma gratuita ensina inglês e espanhol

Duas iniciativas importantes foram lançadas pelo MEC neste mês de abril: o MEC Livros e o MEC Idiomas

Não nego a importância da leitura literária, mas como sou professor de espanhol, vou concentrar minha atenção na notícia do lançamento do segundo recurso mencionado.

O Ministério da  Educação ampliou sua estratégia de ensino digital ao lançar o MEC Idiomas, uma plataforma gratuita voltada à aprendizagem de línguas estrangeiras. A iniciativa oferece cursos online autoinstrucionais de inglês e espanhol, com conteúdo que vai do nível básico ao avançado, acessível por computador, celular ou tablet.

As aulas estão organizadas em 6 níveis (A1 a C2); 4 a 6 módulos por nível, cada um deles com 10 a 15 aulas. Desde o lançamento, estão disponíveis cerca de 800 aulas. 

Diversas ferramentas podem ser acessadas pelos estudantes: teste de proficiência; trilha de aprendizagem (aula e reforço); teste ao fim dos módulos; fale e pratique; agente de Inteligência Artificial para dar apoio e tirar dúvidas e praticar conversação; e comunidades de aprendizado. Esses recursos permitem que o aluno estude no seu próprio ritmo, com autonomia e suporte contínuo. 

O portal está inserido no ecossistema do Idiomas Sem Fronteiras (IsF), compondo uma política de ensino bilingue já consolidada. 

Como acessar o MEC Idiomas

O acesso à plataforma é simples e gratuito. O usuário precisa apenas entrar no portal oficial ou aplicativo (quando disponível) e seguir alguns passos básicos:
    - Acessar o site oficial
    - Escolher o idioma desejado (inglês ou espanhol)
    - Realizar o teste de proficiência
    - Iniciar a trilha de aprendizagem personalizada

Conheça o MEC Idiomas neste link: https://www.gov.br/mec/pt-br/mec-idiomas


23 de mar. de 2026

Análise do vídeo da Fundação Bradesco "De geração em geração, transformando histórias"

 

A Fundação Bradesco lançou há poucos dias (15/03/2026) um vídeo publicitário do trabalho realizado durante 70 anos na área educacional. Seu título é "De geração em geração, transformando histórias".

Acredito que este vídeo pode servir de material de estudo nos cursos de pedagogia para mostrar as mudanças na escola  ao longo do tempo, pois aparecem representações de salas de aula de 1960, de 1980, de 2000 e, por último, de agora, 2026. 

Podemos ver o vídeo aqui:

https://youtu.be/u4_2_Y6jEYM


O docente poderia abrir o debate chamando a atenção para aspectos que mudaram na escola nesse tempo em relação com:

1- Papel e posição do professor
2- Papel e posição dos alunos
3- Atividades
4- Materiais didáticos (livro, quadro branco e recursos tecnológicos)

Assim como qualquer outro assunto que possa surgir. 

Recomendo que depois que o professor introduza verbalmente a tarefa que será realizada, passe uma primeira vez o vídeo sem áudio, para facilitar a  observação  dos aspectos citados acima. Depois, pode passar de novo, desta vez com áudio, 

Evidentemente, é possível trabalhar também com o letramento midiático, fazer uma análise semiótica desse vídeo publicitário, seus elementos constituintes, autores, intenção, a mensagem, etc.

Por exemplo, qual é a função da narração em primeira pessoa ("a minha escola"), do uso de dados (42.000 alunos e 40 escolas), do eslogan final "Fundação Bradesco: só a educação transforma" ou de  outras mensagens que aparecem, como aquela na parede da escola, escrita parcialmente com giz?   

O uso de capturas de tela também pode ajudar na focalização dos elementos que queremos trabalhar. Por exemplo, este:

Momento 0:10 min. do vídeo.

Aquí deixo também a transcrição do vídeo para facilitar as análises textuais com seus alunos.

"Essa é a história da minha escola que nasceu 70 anos atrás, um lugar que entende que a educação é o ponto de partida para infinitas possibilidades. Um lugar onde há 70 anos milhares de histórias são escritas. Histórias que começam em sala de aula e ganham a vida. Histórias de quem aprendeu a ler não só textos, mas o mundo ao redor. Histórias de quem descobriu caminhos onde só havia limites. Histórias de quem transformou oportunidade em conquista. Histórias de quem não só sonhou, mas reescreveu o próprio destino. Mais que 70 anos de existência, celebramos 70 anos de impacto real. Hoje somos 42.000 alunos atendidos gratuitamente todos os anos em 40 escolas próprias, unidas por um só objetivo: seguir de geração em geração transformando histórias. Fundação Bradesco, só a educação transforma".

Pode ser analisado o próprio vídeo, suas cores, sequências, planos? É possível também.

Outra possibilidade de trabalho é praticar a audiodescrição, ou seja, dizer o que é observado no vídeo simulando que algum colega tem dificuldades de visão. Essa atividade parece fácil, mas não é. Precisa de prática.

Como formador de profesores, a modo de resumo desse trabalho, aproveitaria para mostrar um material pedagógico elaborado um tempo atrás com base em um livro de Cope y Kalantzis intitulado "E-learning Pedagogies" (de 2017), pois aparecem alguns elementos que motivaram minha escolha de fazer uma análise das mudanças no tempo das salas de aula com a qual iniciei este comentário.

 

22 de mar. de 2026

Você está usando a IA da maneira errada… e sabe disso

fonte da imagem: Goran Horvat - Pixabay


No âmbito educacional, especialmente na parte de “preparação das aulas” e tudo o que isso envolve, talvez não estejamos obtendo resultados realmente úteis quando perguntamos para alguma IA (chatbot) como fazer isso. 

Não é um problema da tecnologia, mas de como ela é utilizada. Porque usar IA não consiste em digitar “faça uma atividade para mim” e esperar que apareça algo perfeitamente adaptado para a sala de aula. A chave está em algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais poderoso... saber criar bons prompts. Isso é algo que deve estar associado à paciência de realizar muitas interações até conseguirmos o que queremos, mas também depende de alguns conhecimentos simples que precisamos ter.

Um dos erros mais comuns é usar a IA como se fosse um mecanismo de busca, exceto o Google, que já vimos como mudou e potencializou esse processo, mas as IAs generalistas não buscam informações, elas as geram. E quando não tem instruções claras, preenchem as lacunas como podem. Daí surgem essas respostas genéricas, pouco adequadas ao nível dos alunos ou com pouca coerência didática. É então que surge a sensação de que “isso não funciona tão bem quanto diziam”, quando, na verdade, o problema está na abordagem inicial. Na abordagem inicial e na renúncia do professor que aceita sem questionar o resultado bruto fornecido pela IA.

Um prompt educacional não é uma simples pergunta, mas uma instrução com intenção pedagógica. É muito semelhante ao que fazemos quando explicamos uma tarefa em sala de aula. Quanto mais claro e definido for o que solicitamos, melhor será o resultado. Nesse sentido, há quatro elementos básicos que devem ser levados em conta: o contexto (para quem é), o objetivo (o que queremos alcançar), a tarefa (o que a IA deve fazer) e o formato (como queremos receber a resposta). Adicionar também condições — como o tipo de linguagem, a abordagem metodológica ou o nível de dificuldade — ajuda a refinar ainda mais. 

Por exemplo, não é a mesma coisa pedir “explique a fotossíntese” que indicar que a explicação seja feita para alunos do 1º ano do Ensino Médio, com linguagem simples, incorporando um exemplo cotidiano e acrescentando algumas perguntas de verificação. No segundo caso, a resposta já começa a ser utilizável diretamente em sala de aula. Não se trata de complicar a vida, mas de dizer de forma específica o que queremos, para quem e como o queremos. 

Há, além disso, um uso especialmente interessante que deveria ser incorporado no uso da IA. Usá-la para melhorar os prompts iniciais. Ou seja, não apenas solicitar conteúdos, mas pedir que ela refine a maneira como estamos dando instruções. Solicitações como “melhore este prompt para que fique mais claro” ou “adapte-o para alunos com dificuldades” permitem dar um salto de qualidade muito notável sem a necessidade de investir muito tempo.

Quando se começa a trabalhar dessa maneira, as aplicações práticas surgem quase que naturalmente. É possível criar atividades de vários níveis em poucos minutos, adaptar textos a diferentes níveis de compreensão, elaborar critérios de avaliação coerentes ou até mesmo estruturar situações de aprendizagem completas. Isso não substitui o critério do professor, mas reduz significativamente o tempo de preparação e permite que ele se concentre no que realmente importa. E o importante é saber como levar isso para a sala de aula.

No entanto, há um aspecto que não pode ser ignorado. O uso de ferramentas de IA na educação tem limites muito claros. É imprescindível fazê-lo, especialmente quando vemos nas redes sociais algumas aberrações no que é compartilhado que foi feito com a IA por alguns docentes.

Não se deve inserir dados pessoais dos alunos, nem compartilhar situações que possam ser identificáveis, nem trabalhar com informações confidenciais da sala de aula em plataformas abertas. Nos casos em que for necessário utilizar dados reais, a única opção válida é recorrer às ferramentas fornecidas pela própria administração educacional. Não se trata apenas de uma questão normativa, mas também de responsabilidade profissional.

Quanto à escolha da ferramenta, sem complicar muito, atualmente as opções mais equilibradas para a maioria dos professores continuam sendo o ChatGPT ou o Gemini. Funcionam de maneira confiável. Mesmo na versão gratuita permitem interagir com facilidade, compreendem bem o contexto educacional e não exigem conhecimentos técnicos avançados. As versões pagas podem oferecer vantagens em determinados usos mais intensivos, mas não são indispensáveis para começar a trabalhar com segurança. Lembro a vocês, como sempre digo, que devem se sentir à vontade com a ferramenta, e isso significa usar aquela que mais lhes agrada. Não há diferenças significativas entre as duas que mencionei para a geração de esboços de materiais de qualidade a serem usados em sala de aula.

No fim das contas, tudo se resume a uma ideia bastante simples. A IA, por si só, não transforma nada. O que faz a diferença é como ela é utilizada. E isso começa por aprender a formular melhor o que queremos. Porque, na educação como em quase tudo, a qualidade da resposta depende, em grande medida, da qualidade da pergunta.


Texto traduzido e adaptado de "Estás usando mal la IA ... y lo sabes" do autor Jordi Martí, 22 de marzo de 2026. 

18 de mar. de 2026

Protocolo "PPCCDD" para uma pedagogia enriquecida pela IA

Como docente, você já deve ter feito perguntas para algum chatbot de sua preferência para resolver alguma necessidade imediata, seja planos de aulas, dúvidas específicas, listas de vocabulário; atividades, análise de textos, produção de imagens, infográficos, etc. 

Não sei se com você acontece igual, mas com demasiada frequência tenho a impressão que as respostas proporcionadas pelos chatbots deixam um pouco a desejar. Olhando superficialmente, a resposta parece correta e adequada, o produto pode ser até suficiente, mas se você lê com atenção, analisando o texto gerado, percebe que falta algo ou poderia ser melhor.

Ontem mesmo tive dois exemplos frustrantes: um deles gerando um resumo de um capítulo de livro que uso nas aulas, e outro, gerando uma imagem para ilustrar um guia didático, mas em outro momento talvez apresente o que aconteceu com esses exemplos. 

Os gurus da Internet costumam dizer que o problema está no prompt utilizado, mas depois de vários anos trabalhando e resenhando os avanços da IA na educação  e, ao mesmo tempo, falando da IA com meus alunos, me considero uma pessoa com alguma experiência nesse assunto e com um letramento em prompt de mediano para cima.

Pensando nesse assunto, principalmente desde um ponto de vista didático, proponho um protocolo para o trabalho com os resultados gerados pelos chatbots no âmbito escolar, mas que também poderia ser de utilidade em nossa vida em geral.

Este é o protocolo proposto: 

PPCCDD 

(PARE. PENSE. CONFIRA, COMPARE, DIVULGUE e DISCUTA

Não podemos aceitar imediatamente, sem mais, de forma irreflexiva, os resultados entregues pela IA. Os alunos entregam as respostas geradas pelos chatbots nas tarefas e pesquisas solicitadas pelos docentes, provavelmente sem olhar para o resultado e sem qualquer julgamento. Por isso, é válido recomendar primeiro, antes que tudo, Parar antes de enviar.

Pense. Esse resultado é o melhor possível? O que acontece se continuo interagindo com o chatbot? As respostas melhoram?

Todo chatbot e plataforma com IA avisa em letras miúdas "estes resultados podem conter erros" e, de fato, vemos muitas imprecisões e resultados falsos em algumas respostas, principalmente quando são do âmbito acadêmico. Desse tema já temos escrito outras vezes neste blog.

Isso levanta a necessidade de conferir cada referência e resultado obtido.

Qual chatbot brinda uma resposta melhor ou mais adequada para minhas necessidades? Lembre também que as respostas dependem do prompt,  da versão de chatbot utilizada, se é gratuita ou não e o grau de contextualização e número de conversas que já tivemos com esse chatbot. Por isso, é muito importante também comparar os resultados obtidos em cada condição e sistema.  

Em uma pedagogia enriquecida pela IA, podemos ver que muitos chatbots já oferecem a possibilidade de compartilhar as interações (conversas) realizadas com eles. Não estou falando apenas de copiar o resultado, senão de compartilhar a conversa por meio do link oferecido pelo próprio sistema, de forma que outro (o docente junto com os alunos?) possam conferir o caminho percorrido e até continuar o diálogo, se acharem que foi interessante ou ficaram com alguma dúvida. Isto é o que eu chamo de divulgar para os colegas do curso a evidência do ensino/interação com o chatbot empregado.

Esse passo parece simples, mas não é assim. Ele envolve uma mudança de atitude bastante profunda, porque temos enraizada uma ideia firme que o resultado do diálogo com o chatbot é muito pessoal, apenas para mim, e devemos quebrar esse ciclo em sala de aula se queremos avançar. 

Entendo que essa forte noção de "atividade oculta", muito provavelmente surgiu pelo uso instrumental e imediato dos chatbots para fazer, em segredo, as tarefas enviadas pelos professores, mas não deveria ser assim em uma pedagogia enriquecida, de fato, com os chatbots.    

Discutir está muito relacionado com divulgar, porque a partir da divulgação pelos alunos dos links com as conversas e os produtos gerados por toda a turma, o professor pode guiar a comparação e discussão dos resultados obtidos, para chegar nas conclusões ou propor novas tarefas e ajustes nos processos didáticos. 

Na reconfiguração dos processos de ensino adaptados por IA, tal como propõe o recente Referencial para Desenvolvimento e Uso Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação (MEC, 2026, p. 89), e muitas das propostas pedagógicas enriquecidas com IA que tenho visto na literatura, o professor se redefine como um facilitador, mas também temos que reconhecer que devido à extraordinária velocidade dos avanços da IAG, todos somos aprendizes desse tema, com os docentes também incluídos.

Pesquisas informais feitas para saber o grau de conhecimento dos alunos sobre temas da IAG mostram resultados muito variados, predominando o nível baixo ou médio-baixo de domínio e experiência. Por isso, considero que é muito importante discutir estes temas com nossos alunos.   

Por último, devo dizer que este protocolo PPCCDD não nasceu por acaso, nem foi criado a partir da nada. É produto de uma reflexão minha a partir de um curso que fiz recentemente como aluno, onde tive conhecimento do protocolo PIER, de letramento informacional, adaptado para o português pelo Instituto Palavra Aberta/Educamídia (link).

O que você achou desta proposta de protocolo PPCCDD? A utilizaria com seus alunos? Tem alguma ideia ou sugestão para melhorar esta proposta?  Gostaria muito de ouvir seus comentários.

12 de mar. de 2026

Publicado pelo governo federal o Referencial para uso da IA na educação

  

[clique na imagem para baixar o documento] 

Hoje, 12 de março de 2026, foi publicado o Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação, desenvolvido pela Secretaria de Gestão da Informação, Inovação e Avaliação de Políticas Educacionais (SEGAPE), do Ministério da Educação (MEC) do Brasil. 


Este documento, que também possui  uma versão em inglês, é um instrumento de orientação para instituições, educadores, gestores e formuladores de políticas públicas e reúne diretrizes, princípios e recomendações para promover a integração responsável, ética e socialmente comprometida da inteligência artificial nos processos educacionais, em consonância com os marcos legais vigentes.  

As recomendações práticas e diretrizes são dirigidas a todos os níveis de ensino — da educação infantil à pós-graduação — e aos diversos atores do sistema educacional brasileiro, como são as redes de ensino. 


BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Referencial para Desenvolvimento e Uso Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação. 1 ed., Brasília, DF: Ministério da Educação, 2026, 241 p.  
https://www.gov.br/mec/pt-br/media/segape/referencial-oficial-pt.pdf

BRAZIL. MINISTRY OF EDUCATION. Framework for the Development and Responsible Use of Artificial Intelligence in Education. Brasilia, DF: Ministry of Education, 2026, 224 p. https://www.gov.br/mec/pt-br/media/segape/referencial-oficial-en.pdf 

10 de out. de 2025

Um livro sobre IA que todo educador deveria ler

Não quero dizer nada sobre este excelente livro de forma antecipada, como não seja recomendar sua leitura para todos os educadores e educadoras. É uma edição bilíngue (em português e inglês).

Clique na imagem da capa para ver uma breve descrição dele e poder baixar o livro em pdf. 

Ficou na dúvida e não tem tempo agora para ler? Abra e veja a página 41. Espero dessa forma incentivar sua leitura. 

Esta é uma obra que merece uma leitura tranquila, refletindo sobre cada capítulo, preferencialmente de forma coletiva: professores formadores com licenciandos, gestores com as professoras e professores de sua unidade, etc.    

BRITO, Renato; PARENTE, Rafael; MESQUITA, Maria Cristina. O Professor Ampliado: Reimaginando o Papel Docente na Era da IA / The Amplified Teacher. Reimagining the Teacher`s Rol in The Age of AI. Brasília, DF: Cátedra Unesco de Juventude, Educação e Sociedade: Universidade Católica de Brasília, 2025. https://catedra.ucb.br/arquivos/19771 

9 de out. de 2025

Modo IA. Uma nova forma de pesquisar com Google

O modo de "fazer pesquisa" no Google está mudando. Em pouco tempo o resultado não será mais em forma de uma lista de sites e links correspondentes, ou pelo menos, essa não será mais a única opção, como foi até agora.

Você já deve ter observado que, desde meados de 2024, o Google pode apresentar resumos criados com IA no início dos resultados das buscas realizadas. Essa é uma Visão Geral criada por IA (Google AI Overviews). Pouco depois, no mesmo ano, acrescentaram os links para as fontes utilizadas e as miniaturas das fontes que aparecem no lado direito do resultado da pesquisa. 

Agora, em setembro de 2025 o Google lançou em português uma nova funcionalidade de busca chamada Modo IA. Tinha sido lançada oficialmente nos Estados Unidos em junho do mesmo ano e disponibilizada em inglês para mais de 180 países, incluindo o Brasil, no final de agosto de 2025. 

O modo IA é uma aba que está na primeira linha (Figura 1) ou como botão no lado direito da janela do buscador (Figura 2).

Figura 1 - Aba nos resultados de busca. 

Figura 2 - Botão no buscador. 

Esta nova possibilidade pode trazer uma mudança para as formas de pesquisar e "conversar" com os resultados, melhorando a busca de informação. 

Entendo que até agora os esforços dos desenvolvedores e analistas SEO (Search Engine Optimizationeram para tentar posicionar bem os sites na primeira página dos resultados, mas a partir de agora, provavelmente será para aparecer esses sites ou páginas nas respostas dos resumos (Visão geral) e interações no Modo IA.

Com o Modo IA você pode fazer perguntas complexas, compostas por várias partes, e até mesmo perguntas complementares, pois ele usa a técnica de desdobramento da pergunta (query fan-out), que divide sua pergunta em subtópicos e promove uma infinidade de consultas simultáneamente.

Você pode dialogar com os resultados e seguir interrogando a informação. Essa busca interativa pode proporcionar respostas de várias mídias (blogs, vídeos, glossários, etc.).

Pela parte nossa, como docentes, podemos pedir agora pesquisas mais aprofundadas com o Modo IA para nossos alunos. Também percebo que agora é muito mais fácil indicar o idioma da pesquisa e mudar, caso seja necessário. Isso é muito importante para os docentes de línguas estrangeiras, porque nos últimos tempos era bastante difícil que o Google mostrasse os resultados em outro idioma que não fosse o vinculado com sua conta pessoal ou local de origem. Por exemplo, eu desde o Brasil, pedia uma determinada página em espanhol, mas automaticamente o Google estava oferecendo sites equivalentes em português. Agora, com acrescentar no prompt ou comando algo como "em espanhol" já oferece resultados nessa língua (ou qualquer outra do nosso interesse). 

Para ir com passos lentos, porém seguros, recomendo que os docentes façam testes com seus alunos escolhendo algum tema interessante e mostrem como trabalhar com sistemas como estes, que são facilmente acessíveis desde qualquer dispositivo digital pessoal, sem necessidade de cadastro prévio. 

Será muito recomendável ir fazendo esses testes comparando dois caminhos ou possibilidades (busca comum e busca com IA), dois chatbots (por exemplo, Google e Perplexity) ou comparando as variações de respostas de acordo com os prompts e contextos dados. O passo final será compartilhar com os colegas seus resultados (que por agora podem ser as capturas de tela se fosse com o modo IA citado ou links diretos de outros chatbots) e analisar se esses resultados estão corretos e foram suficientes para a tarefa solicitada.

O modo IA deve oferecer em breve a possibilidade de compartilhar o link da pesquisa e conversa realizada, como já faz em inglês [já disponível em 2026]. O fato de poder compartilhar os links das interações realizadas com os chatbots é algo que pode ser muito útil para os docentes, para poder trabalhar com uma pedagogia baseada em evidências, onde os alunos compartilhem seus resultados e percursos seguidos nessas interações. 

Podemos somar a este sistema de busca e uma pedagogia enriquecida ou com apoio da IA (AI augmented) o uso de outro sistema recente, também do ecosistema Google, bem interessante e potente. Refiro-me ao NotebookLM, sobre o qual mostrei uma experiência de uso neste mesmo blog (ver aqui) utilizando apenas os podcasts que podem ser gerados, dentre outras possibilidades. 

Em resumo, com os chatbots que são capazes de devolver resultados bastante completos com base em informações integradas a partir de várias fontes, o docente que pedir para seus alunos apenas uma "pesquisa" simples, ficará aquém das possibilidades. Os currículos devem mudar e os desafios educacionais também. Com uma boa estratégia pedagógica e seguindo metodologias ativas, a educação pode ser mais engajadora, relevante e personalizada, apoiados na IA em alguma das etapas do processo.

A figura 3, a continuação, adaptada de Gentile et al. (2023), pode ajudar na visualização dessas mudanças no papel docente na era da IA. Para completar o quadro podemos somar experiências de outros autores que deixarei nas referências.  

Figura 3 -  Papel dos docentes na era da IA 

Gentile et al. (2023) adaptado por Gonzalo Abio (2023).

Referências

ABIO, Gonzalo. Um podcast feito com IA para explicar a Gramática de Design Visual (GDV) de Kress e van Leeuwen. Blog de Gonzalo Abio -Educação, 16 de set. de 2025. 
https://gonzaloabio-educa.blogspot.com/2025/09/um-podcast-para-explicar-com-exemplos.html

CARVALHO, Mara Cynthia Ferreira de; CARVALHO, Claudio Ferreira de. O Impacto da utilização do NotebookLM como metodologia ativa para melhorar o processo de aprendizagem e desempenho estudantil. Unisanta Humanitas, v. 14, n. 2, p. 279-291, 2025. https://doi.org/10.5281/zenodo.17179945

GENTILE, Manuel et al. Do we still need teachers? Navigating the paradigm shift of the teacher's role in the AI era. In: Frontiers in Education, v. 8, p. 1161777, 2023. https://doi.org/10.3389/feduc.2023.1161777

GOOGLE. Encontrar informações de maneira mais rápida e fácil com a Visão Geral Criada por IA na Pesquisa Google
https://support.google.com/websearch/answer/14901683?sjid=8756655113343176505-SA

KARATAŞ, Fatih; ERIÇOK, Barış; TANRIKULU, Lokman. Reshaping curriculum adaptation in the age of artificial intelligence: Mapping teachers' AI‐driven curriculum adaptation patterns. British Educational Research Journal, v. 51, n. 1, p. 154-180, 2025. https://doi.org/10.1002/berj.4068