23 de mar. de 2026

Análise do vídeo da Fundação Bradesco "De geração em geração, transformando histórias"

 

A Fundação Bradesco lançou há poucos dias (15/03/2026) um vídeo publicitário do trabalho realizado durante 70 anos na área educacional. Seu título é "De geração em geração, transformando histórias".

Acredito que este vídeo pode servir de material de estudo nos cursos de pedagogia para mostrar as mudanças na escola  ao longo do tempo, pois aparecem representações de salas de aula de 1960, de 1980, de 2000 e, por último, de agora, 2026. 

Podemos ver o vídeo aqui:

https://youtu.be/u4_2_Y6jEYM


O docente poderia abrir o debate chamando a atenção para aspectos que mudaram na escola nesse tempo em relação com:

1- Papel e posição do professor
2- Papel e posição dos alunos
3- Atividades
4- Materiais didáticos (livro, quadro branco e recursos tecnológicos)

Assim como qualquer outro assunto que possa surgir. 

Recomendo que depois que o professor introduza verbalmente a tarefa que será realizada, passe uma primeira vez o vídeo sem áudio, para facilitar a  observação  dos aspectos citados acima. Depois, pode passar de novo, desta vez com áudio, 

Evidentemente, é possível trabalhar também com o letramento midiático, fazer uma análise semiótica desse vídeo publicitário, seus elementos constituintes, autores, intenção, a mensagem, etc.

Por exemplo, qual é a função da narração em primeira pessoa ("a minha escola"), do uso de dados (42.000 alunos e 40 escolas), do eslogan final "Fundação Bradesco: só a educação transforma" ou de  outras mensagens que aparecem, como aquela na parede da escola, escrita parcialmente com giz?   

O uso de capturas de tela também pode ajudar na focalização dos elementos que queremos trabalhar. Por exemplo, este:

Momento 0:10 min. do vídeo.

Aquí deixo também a transcrição do vídeo para facilitar as análises textuais com seus alunos.

"Essa é a história da minha escola que nasceu 70 anos atrás, um lugar que entende que a educação é o ponto de partida para infinitas possibilidades. Um lugar onde há 70 anos milhares de histórias são escritas. Histórias que começam em sala de aula e ganham a vida. Histórias de quem aprendeu a ler não só textos, mas o mundo ao redor. Histórias de quem descobriu caminhos onde só havia limites. Histórias de quem transformou oportunidade em conquista. Histórias de quem não só sonhou, mas reescreveu o próprio destino. Mais que 70 anos de existência, celebramos 70 anos de impacto real. Hoje somos 42.000 alunos atendidos gratuitamente todos os anos em 40 escolas próprias, unidas por um só objetivo: seguir de geração em geração transformando histórias. Fundação Bradesco, só a educação transforma".

Pode ser analisado o próprio vídeo, suas cores, sequências, planos? É possível também.

Outra possibilidade de trabalho é praticar a audiodescrição, ou seja, dizer o que é observado no vídeo simulando que algum colega tem dificuldades de visão. Essa atividade parece fácil, mas não é. Precisa de prática.

Como formador de profesores, a modo de resumo desse trabalho, aproveitaria para mostrar um material pedagógico elaborado um tempo atrás com base em um livro de Cope y Kalantzis intitulado "E-learning Pedagogies" (de 2017), pois aparecem alguns elementos que motivaram minha escolha de fazer uma análise das mudanças no tempo das salas de aula com a qual iniciei este comentário.

 

22 de mar. de 2026

Você está usando a IA da maneira errada… e sabe disso

fonte da imagem: Goran Horvat - Pixabay


No âmbito educacional, especialmente na parte de “preparação das aulas” e tudo o que isso envolve, talvez não estejamos obtendo resultados realmente úteis quando perguntamos para alguma IA (chatbot) como fazer isso. 

Não é um problema da tecnologia, mas de como ela é utilizada. Porque usar IA não consiste em digitar “faça uma atividade para mim” e esperar que apareça algo perfeitamente adaptado para a sala de aula. A chave está em algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais poderoso... saber criar bons prompts. Isso é algo que deve estar associado à paciência de realizar muitas interações até conseguirmos o que queremos, mas também depende de alguns conhecimentos simples que precisamos ter.

Um dos erros mais comuns é usar a IA como se fosse um mecanismo de busca, exceto o Google, que já vimos como mudou e potencializou esse processo, mas as IAs generalistas não buscam informações, elas as geram. E quando não tem instruções claras, preenchem as lacunas como podem. Daí surgem essas respostas genéricas, pouco adequadas ao nível dos alunos ou com pouca coerência didática. É então que surge a sensação de que “isso não funciona tão bem quanto diziam”, quando, na verdade, o problema está na abordagem inicial. Na abordagem inicial e na renúncia do professor que aceita sem questionar o resultado bruto fornecido pela IA.

Um prompt educacional não é uma simples pergunta, mas uma instrução com intenção pedagógica. É muito semelhante ao que fazemos quando explicamos uma tarefa em sala de aula. Quanto mais claro e definido for o que solicitamos, melhor será o resultado. Nesse sentido, há quatro elementos básicos que devem ser levados em conta: o contexto (para quem é), o objetivo (o que queremos alcançar), a tarefa (o que a IA deve fazer) e o formato (como queremos receber a resposta). Adicionar também condições — como o tipo de linguagem, a abordagem metodológica ou o nível de dificuldade — ajuda a refinar ainda mais. 

Por exemplo, não é a mesma coisa pedir “explique a fotossíntese” que indicar que a explicação seja feita para alunos do 1º ano do Ensino Médio, com linguagem simples, incorporando um exemplo cotidiano e acrescentando algumas perguntas de verificação. No segundo caso, a resposta já começa a ser utilizável diretamente em sala de aula. Não se trata de complicar a vida, mas de dizer de forma específica o que queremos, para quem e como o queremos. 

Há, além disso, um uso especialmente interessante que deveria ser incorporado no uso da IA. Usá-la para melhorar os prompts iniciais. Ou seja, não apenas solicitar conteúdos, mas pedir que ela refine a maneira como estamos dando instruções. Solicitações como “melhore este prompt para que fique mais claro” ou “adapte-o para alunos com dificuldades” permitem dar um salto de qualidade muito notável sem a necessidade de investir muito tempo.

Quando se começa a trabalhar dessa maneira, as aplicações práticas surgem quase que naturalmente. É possível criar atividades de vários níveis em poucos minutos, adaptar textos a diferentes níveis de compreensão, elaborar critérios de avaliação coerentes ou até mesmo estruturar situações de aprendizagem completas. Isso não substitui o critério do professor, mas reduz significativamente o tempo de preparação e permite que ele se concentre no que realmente importa. E o importante é saber como levar isso para a sala de aula.

No entanto, há um aspecto que não pode ser ignorado. O uso de ferramentas de IA na educação tem limites muito claros. É imprescindível fazê-lo, especialmente quando vemos nas redes sociais algumas aberrações no que é compartilhado que foi feito com a IA por alguns docentes.

Não se deve inserir dados pessoais dos alunos, nem compartilhar situações que possam ser identificáveis, nem trabalhar com informações confidenciais da sala de aula em plataformas abertas. Nos casos em que for necessário utilizar dados reais, a única opção válida é recorrer às ferramentas fornecidas pela própria administração educacional. Não se trata apenas de uma questão normativa, mas também de responsabilidade profissional.

Quanto à escolha da ferramenta, sem complicar muito, atualmente as opções mais equilibradas para a maioria dos professores continuam sendo o ChatGPT ou o Gemini. Funcionam de maneira confiável. Mesmo na versão gratuita permitem interagir com facilidade, compreendem bem o contexto educacional e não exigem conhecimentos técnicos avançados. As versões pagas podem oferecer vantagens em determinados usos mais intensivos, mas não são indispensáveis para começar a trabalhar com segurança. Lembro a vocês, como sempre digo, que devem se sentir à vontade com a ferramenta, e isso significa usar aquela que mais lhes agrada. Não há diferenças significativas entre as duas que mencionei para a geração de esboços de materiais de qualidade a serem usados em sala de aula.

No fim das contas, tudo se resume a uma ideia bastante simples. A IA, por si só, não transforma nada. O que faz a diferença é como ela é utilizada. E isso começa por aprender a formular melhor o que queremos. Porque, na educação como em quase tudo, a qualidade da resposta depende, em grande medida, da qualidade da pergunta.


Texto traduzido e adaptado de "Estás usando mal la IA ... y lo sabes" do autor Jordi Martí, 22 de marzo de 2026. 

18 de mar. de 2026

Protocolo "PPCCDD" para uma pedagogia enriquecida pela IA

Como docente, você já deve ter feito perguntas para algum chatbot de sua preferência para resolver alguma necessidade imediata, seja planos de aulas, dúvidas específicas, listas de vocabulário; atividades, análise de textos, produção de imagens, infográficos, etc. 

Não sei se com você acontece igual, mas com demasiada frequência tenho a impressão que as respostas proporcionadas pelos chatbots deixam um pouco a desejar. Olhando superficialmente, a resposta parece correta e adequada, o produto pode ser até suficiente, mas se você lê com atenção, analisando o texto gerado, percebe que falta algo ou poderia ser melhor.

Ontem mesmo tive dois exemplos frustrantes: um deles gerando um resumo de um capítulo de livro que uso nas aulas, e outro, gerando uma imagem para ilustrar um guia didático, mas em outro momento talvez apresente o que aconteceu com esses exemplos. 

Os gurus da Internet costumam dizer que o problema está no prompt utilizado, mas depois de vários anos trabalhando e resenhando os avanços da IA na educação  e, ao mesmo tempo, falando da IA com meus alunos, me considero uma pessoa com alguma experiência nesse assunto e com um letramento em prompt de mediano para cima.

Pensando nesse assunto, principalmente desde um ponto de vista didático, proponho um protocolo para o trabalho com os resultados gerados pelos chatbots no âmbito escolar, mas que também poderia ser de utilidade em nossa vida em geral.

Este é o protocolo proposto: 

PPCCDD 

(PARE. PENSE. CONFIRA, COMPARE, DIVULGUE e DISCUTA

Não podemos aceitar imediatamente, sem mais, de forma irreflexiva, os resultados entregues pela IA. Os alunos entregam as respostas geradas pelos chatbots nas tarefas e pesquisas solicitadas pelos docentes, provavelmente sem olhar para o resultado e sem qualquer julgamento. Por isso, é válido recomendar primeiro, antes que tudo, Parar antes de enviar.

Pense. Esse resultado é o melhor possível? O que acontece se continuo interagindo com o chatbot? As respostas melhoram?

Todo chatbot e plataforma com IA avisa em letras miúdas "estes resultados podem conter erros" e, de fato, vemos muitas imprecisões e resultados falsos em algumas respostas, principalmente quando são do âmbito acadêmico. Desse tema já temos escrito outras vezes neste blog.

Isso levanta a necessidade de conferir cada referência e resultado obtido.

Qual chatbot brinda uma resposta melhor ou mais adequada para minhas necessidades? Lembre também que as respostas dependem do prompt,  da versão de chatbot utilizada, se é gratuita ou não e o grau de contextualização e número de conversas que já tivemos com esse chatbot. Por isso, é muito importante também comparar os resultados obtidos em cada condição e sistema.  

Em uma pedagogia enriquecida pela IA, podemos ver que muitos chatbots já oferecem a possibilidade de compartilhar as interações (conversas) realizadas com eles. Não estou falando apenas de copiar o resultado, senão de compartilhar a conversa por meio do link oferecido pelo próprio sistema, de forma que outro (o docente junto com os alunos?) possam conferir o caminho percorrido e até continuar o diálogo, se acharem que foi interessante ou ficaram com alguma dúvida. Isto é o que eu chamo de divulgar para os colegas do curso a evidência do ensino/interação com o chatbot empregado.

Esse passo parece simples, mas não é assim. Ele envolve uma mudança de atitude bastante profunda, porque temos enraizada uma ideia firme que o resultado do diálogo com o chatbot é muito pessoal, apenas para mim, e devemos quebrar esse ciclo em sala de aula se queremos avançar. 

Entendo que essa forte noção de "atividade oculta", muito provavelmente surgiu pelo uso instrumental e imediato dos chatbots para fazer, em segredo, as tarefas enviadas pelos professores, mas não deveria ser assim em uma pedagogia enriquecida, de fato, com os chatbots.    

Discutir está muito relacionado com divulgar, porque a partir da divulgação pelos alunos dos links com as conversas e os produtos gerados por toda a turma, o professor pode guiar a comparação e discussão dos resultados obtidos, para chegar nas conclusões ou propor novas tarefas e ajustes nos processos didáticos. 

Na reconfiguração dos processos de ensino adaptados por IA, tal como propõe o recente Referencial para Desenvolvimento e Uso Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação (MEC, 2026, p. 89), e muitas das propostas pedagógicas enriquecidas com IA que tenho visto na literatura, o professor se redefine como um facilitador, mas também temos que reconhecer que devido à extraordinária velocidade dos avanços da IAG, todos somos aprendizes desse tema, com os docentes também incluídos.

Pesquisas informais feitas para saber o grau de conhecimento dos alunos sobre temas da IAG mostram resultados muito variados, predominando o nível baixo ou médio-baixo de domínio e experiência. Por isso, considero que é muito importante discutir estes temas com nossos alunos.   

Por último, devo dizer que este protocolo PPCCDD não nasceu por acaso, nem foi criado a partir da nada. É produto de uma reflexão minha a partir de um curso que fiz recentemente como aluno, onde tive conhecimento do protocolo PIER, de letramento informacional, adaptado para o português pelo Instituto Palavra Aberta/Educamídia (link).

O que você achou desta proposta de protocolo PPCCDD? A utilizaria com seus alunos? Tem alguma ideia ou sugestão para melhorar esta proposta?  Gostaria muito de ouvir seus comentários.

12 de mar. de 2026

Publicado pelo governo federal o Referencial para uso da IA na educação

  

[clique na imagem para baixar o documento] 

Hoje, 12 de março de 2026, foi publicado o Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação, desenvolvido pela Secretaria de Gestão da Informação, Inovação e Avaliação de Políticas Educacionais (SEGAPE), do Ministério da Educação (MEC) do Brasil. 


Este documento, que também possui  uma versão em inglês, é um instrumento de orientação para instituições, educadores, gestores e formuladores de políticas públicas e reúne diretrizes, princípios e recomendações para promover a integração responsável, ética e socialmente comprometida da inteligência artificial nos processos educacionais, em consonância com os marcos legais vigentes.  

As recomendações práticas e diretrizes são dirigidas a todos os níveis de ensino — da educação infantil à pós-graduação — e aos diversos atores do sistema educacional brasileiro, como são as redes de ensino. 


BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Referencial para Desenvolvimento e Uso Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação. 1 ed., Brasília, DF: Ministério da Educação, 2026, 241 p.  
https://www.gov.br/mec/pt-br/media/segape/referencial-oficial-pt.pdf

BRAZIL. MINISTRY OF EDUCATION. Framework for the Development and Responsible Use of Artificial Intelligence in Education. Brasilia, DF: Ministry of Education, 2026, 224 p. https://www.gov.br/mec/pt-br/media/segape/referencial-oficial-en.pdf