Mostrando postagens com marcador Competências digitais docentes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Competências digitais docentes. Mostrar todas as postagens

22 de mar. de 2026

Você está usando a IA da maneira errada… e sabe disso

fonte da imagem: Goran Horvat - Pixabay


No âmbito educacional, especialmente na parte de “preparação das aulas” e tudo o que isso envolve, talvez não estejamos obtendo resultados realmente úteis quando perguntamos para alguma IA (chatbot) como fazer isso. 

Não é um problema da tecnologia, mas de como ela é utilizada. Porque usar IA não consiste em digitar “faça uma atividade para mim” e esperar que apareça algo perfeitamente adaptado para a sala de aula. A chave está em algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais poderoso... saber criar bons prompts. Isso é algo que deve estar associado à paciência de realizar muitas interações até conseguirmos o que queremos, mas também depende de alguns conhecimentos simples que precisamos ter.

Um dos erros mais comuns é usar a IA como se fosse um mecanismo de busca, exceto o Google, que já vimos como mudou e potencializou esse processo, mas as IAs generalistas não buscam informações, elas as geram. E quando não tem instruções claras, preenchem as lacunas como podem. Daí surgem essas respostas genéricas, pouco adequadas ao nível dos alunos ou com pouca coerência didática. É então que surge a sensação de que “isso não funciona tão bem quanto diziam”, quando, na verdade, o problema está na abordagem inicial. Na abordagem inicial e na renúncia do professor que aceita sem questionar o resultado bruto fornecido pela IA.

Um prompt educacional não é uma simples pergunta, mas uma instrução com intenção pedagógica. É muito semelhante ao que fazemos quando explicamos uma tarefa em sala de aula. Quanto mais claro e definido for o que solicitamos, melhor será o resultado. Nesse sentido, há quatro elementos básicos que devem ser levados em conta: o contexto (para quem é), o objetivo (o que queremos alcançar), a tarefa (o que a IA deve fazer) e o formato (como queremos receber a resposta). Adicionar também condições — como o tipo de linguagem, a abordagem metodológica ou o nível de dificuldade — ajuda a refinar ainda mais. 

Por exemplo, não é a mesma coisa pedir “explique a fotossíntese” que indicar que a explicação seja feita para alunos do 1º ano do Ensino Médio, com linguagem simples, incorporando um exemplo cotidiano e acrescentando algumas perguntas de verificação. No segundo caso, a resposta já começa a ser utilizável diretamente em sala de aula. Não se trata de complicar a vida, mas de dizer de forma específica o que queremos, para quem e como o queremos. 

Há, além disso, um uso especialmente interessante que deveria ser incorporado no uso da IA. Usá-la para melhorar os prompts iniciais. Ou seja, não apenas solicitar conteúdos, mas pedir que ela refine a maneira como estamos dando instruções. Solicitações como “melhore este prompt para que fique mais claro” ou “adapte-o para alunos com dificuldades” permitem dar um salto de qualidade muito notável sem a necessidade de investir muito tempo.

Quando se começa a trabalhar dessa maneira, as aplicações práticas surgem quase que naturalmente. É possível criar atividades de vários níveis em poucos minutos, adaptar textos a diferentes níveis de compreensão, elaborar critérios de avaliação coerentes ou até mesmo estruturar situações de aprendizagem completas. Isso não substitui o critério do professor, mas reduz significativamente o tempo de preparação e permite que ele se concentre no que realmente importa. E o importante é saber como levar isso para a sala de aula.

No entanto, há um aspecto que não pode ser ignorado. O uso de ferramentas de IA na educação tem limites muito claros. É imprescindível fazê-lo, especialmente quando vemos nas redes sociais algumas aberrações no que é compartilhado que foi feito com a IA por alguns docentes.

Não se deve inserir dados pessoais dos alunos, nem compartilhar situações que possam ser identificáveis, nem trabalhar com informações confidenciais da sala de aula em plataformas abertas. Nos casos em que for necessário utilizar dados reais, a única opção válida é recorrer às ferramentas fornecidas pela própria administração educacional. Não se trata apenas de uma questão normativa, mas também de responsabilidade profissional.

Quanto à escolha da ferramenta, sem complicar muito, atualmente as opções mais equilibradas para a maioria dos professores continuam sendo o ChatGPT ou o Gemini. Funcionam de maneira confiável. Mesmo na versão gratuita permitem interagir com facilidade, compreendem bem o contexto educacional e não exigem conhecimentos técnicos avançados. As versões pagas podem oferecer vantagens em determinados usos mais intensivos, mas não são indispensáveis para começar a trabalhar com segurança. Lembro a vocês, como sempre digo, que devem se sentir à vontade com a ferramenta, e isso significa usar aquela que mais lhes agrada. Não há diferenças significativas entre as duas que mencionei para a geração de esboços de materiais de qualidade a serem usados em sala de aula.

No fim das contas, tudo se resume a uma ideia bastante simples. A IA, por si só, não transforma nada. O que faz a diferença é como ela é utilizada. E isso começa por aprender a formular melhor o que queremos. Porque, na educação como em quase tudo, a qualidade da resposta depende, em grande medida, da qualidade da pergunta.


Texto traduzido e adaptado de "Estás usando mal la IA ... y lo sabes" do autor Jordi Martí, 22 de marzo de 2026. 

11 de ago. de 2025

Fatores de integração de tecnologias digitais na educação básica. Um estudo interessante.

Martin, Gezer e Ceviker (2025) realizaram uma revisão sistemática, na qual examinaram 307 artigos sobre fatores que influenciam a integração da tecnologia na escola. A integração da tecnologia pelos professores foi observada através de uma lente multidimensional que incluiu quatro dimensões: escola, aluno, professor e tecnologia. Essas quatro dimensões incluíram 11 fatores e 47 subfatores: fatores relacionados à escola (histórico da escola, cultura, apoio, currículo e ensino); fatores relacionados ao aluno (demografia do aluno, fatores afetivos, cognitivos e comportamentais); fatores relacionados ao professor (histórico do professor, fatores afetivos e cognitivos); e fatores relacionados à tecnologia (facilidade de acesso e uso da tecnologia).

Os resultados foram resumidos nesta imagem: 

 

fonte da imagem: Martin, Gezer e Ceviker (2025, p. 25)

A mesma imagem traduzida:




 

Implicações para a prática

Este esquema pode servir para professores, administradores, formadores de professores e tecnólogos. 

Professores. Os professores podem analisar os vários fatores que são críticos para a integração da tecnologia, tanto em termos de apoio como de obstáculo no seu contexto. Por exemplo, na dimensão dos alunos, ao ensinar alunos mais jovens, os professores podem ser obrigados a utilizar abordagens mais estruturadas e menos dependentes da tecnologia. 

No entanto, a integração da tecnologia é eficaz quando existe alinhamento com os objetivos pedagógicos e quando os alunos estão motivados. A integração da tecnologia também é útil para envolver os alunos por meio da aprendizagem prática com a tecnologia. Na dimensão do professor, os fatores relacionados ao histórico do professor podem informá-lo sobre as características e os conhecimentos necessários para integrar a tecnologia com sucesso.

Os professores podem analisar especificamente as outras variáveis relacionadas ao professor para examinar sua posição em relação às variáveis afetivas e cognitivas relacionadas à integração da tecnologia. Por exemplo, as crenças e percepções do professor, confiança, autoeficácia, motivação, prontidão, entusiasmo pela tecnologia, conhecimento e habilidades, raciocínio pedagógico e alinhamento curricular influenciam a integração da tecnologia. 

Administradores. Os administradores podem oferecer apoio, especialmente em variáveis relacionadas à escola, como apoio, cultura, currículo e ensino. Por exemplo, na dimensão escolar, a infraestrutura e a disponibilidade de recursos da escola, a cultura escolar, a influência dos colegas, o apoio dos colegas e da liderança, a autonomia dos professores e a redução da carga de trabalho são fundamentais para a integração da tecnologia.

No entanto, turmas maiores limitam a integração da tecnologia de forma eficaz. As políticas, por outro lado, tiveram resultados mistos, por isso é importante ter políticas escolares de apoio e não políticas que sejam obstáculos para a integração da tecnologia pelos professores. Eles também podem levar em consideração as variáveis do contexto escolar ao decidir sobre a tecnologia a ser adquirida para suas escolas.

Tecnólogos. Os tecnólogos educacionais ou facilitadores de tecnologia que apoiam os professores podem encontrar maneiras significativas de integrar a tecnologia na sala de aula, usando esses resultados para informar quais fatores apoiam a integração da tecnologia e quais podem ser um desafio. Os tecnólogos podem recomendar tecnologias que sejam fáceis de acessar, fáceis de usar e que evitem lesões, pois as descobertas sugerem que fatores como propriedade da tecnologia, conectividade confiável, tecnologias fáceis de usar e priorização do conforto e da segurança do usuário na dimensão tecnológica são requisitos para que os professores integrem a tecnologia de maneira eficaz. É importante que os tecnólogos selecionem tecnologias que atendam a esses critérios. Além disso, o apoio e o desenvolvimento profissional são essenciais para a integração da tecnologia pelos professores, o que os tecnólogos podem fornecer.

Formadores de professores. Além disso, os formadores de professores podem usar essas descobertas para incluir em cursos de formação de professores em serviço, para que os professores em treinamento possam estar mais bem preparados para integrar a tecnologia na sala de aula. Fatores relacionados às características dos professores e dos alunos sobre quando a integração da tecnologia é eficaz são importantes para os professores em serviço estarem cientes antes de integrar a tecnologia na sala de aula (Martin; Gezer; Ceviker, 2025, p. 26-27).

Referência  

MARTIN, Florence; GEZER, Tuba; CEVIKER, Elife. Exploring multidimensional factors influencing teachers’ technology integration in K–12 education: A systematic review. Journal of Research on Technology in Education, p. 1-35, 2025. https://doi.org/10.1080/15391523.2025.2534951

 


22 de mai. de 2025

Usos da Inteligência Artificial generativa na docência. Um esquema-base.


Este esquema foi elaborado a partir da segunda metade de 2024 para introduzir o tema com alunos ou para eventos formativos com docentes. 

Agora vemos a segunda versão. 

Os usos da IA generativa na educação são um campo muito dinâmico, com mudanças constantes. Por isso não gosto de pensar em propostas fechadas. 

Sintam-se à vontade para perguntar, opinar, alterar ou sugerir mudanças e melhorias, pois uma proposta como essa pode ser tomada da forma como está ou adaptada para os objetivos de cada um.

Leituras complementares 

ALAWIDA, Moatsum et al. A comprehensive study of ChatGPT:  Advancements, limitations, and ethical considerations in natural language processing and cybersecurity. Information, v. 14, n. 8, p. 462, 2023. https://doi.org/10.3390/info14080462

CASSANY, Daniel. (Enseñar a) leer y escribir con inteligencias artificiales generativas: reflexiones, oportunidades y retos. Enunciación, v. 29, n. 2, p. 320-336, 2024. https://doi.org/10.14483/22486798.22891 

D'ESPOSITO, Maria Eugenia Witzler; GATNER, Sérgio. Inteligência artificial no ensino-aprendizagem de línguas. The Especialist, v. 45, n. 3, p. 134-153, 2024. https://doi.org/10.23925/2318-7115.2024v45i3e63941

JEON, Jaeho; LEE, Seongyong. Chatbots as a Field of Inquiry in CALL. In: The Palgrave Encyclopedia of Computer-Assisted Language Learning. Cham: Springer Nature Switzerland, 2025. p. 1-7. https://link.springer.com/rwe/10.1007/978-3-031-51447-0_288-1

PATTIER, Daniel; REDONDO-DUARTE, Sara. La vida online, la inteligencia artificial y su lectura pedagógica. Márgenes. Revista de Educación de la Universidad de Málaga, v. 6, n. 1, p. 28-45, 2025. https://doi.org/10.24310/mar.6.1.2025.20784
Contém uma lista de usos da IA na educação (em espanhol)

CHALLCO, Geiser Chalco; CRUZ, Wilmax Marreiro; ISOTANI, Seiji; BITTENCOURT, Ig Ibert. Inteligência Artificial Generativa na Educação. Maceió, IA.EDU/NEES, 2024. https://iaedu.nees.ufal.br/wp-content/uploads/2025/04/NT-1-Inteligencia-Artificial-Generativa-na-Educacao.pdf 
Mostram exemplos de prompts (comandos) e recomendações para oito cenários de aplicação da IA na educação.

CHOI, Ka Yan; WU, Chenze; MOORHOUSE, Benjamin Luke. Exploring the Use of Generative Artificial Intelligence (GenAI) in English Language Teaching: Voices from In-Service Teachers at  an Early-Adopting Hong Kong Secondary School. Technology in Language Teaching & Learning, v. 7, n. 2, 102516, 2025. https://doi.org/10.29140/tltl.v7n2.102516
Neste artigo os autores analisaram os usos que fazem da IA generativa três profesores que ensinam inglês em Hong Kong, assim como suas vantagens e desvantagens. 

MOREIRA, José António; DIAS-TRINDADE, Sara; KNUPPEL, Maria Aparecida; SERRA, Ilka Marcia Ribeiro de Souza. Quadro de referência das competências pedagógico-digitais de professores: pedagogical digcompedu reloaded. São Luis: EDUEMA, 2024. https://www.uvpr.pr.gov.br/wp-content/uploads/2024/08/PED_DIGCOMPEDU_RED24_final_PTBrasil_14ago.pdf
Este framework (Pedagogical DigCompEdu Reloaded) incorpora as novas possibilidades da IAgen às quatro dimensões do Quadro de Referência das Competências Pedagógico-Digitais de Professores (DigCompEdu).  

SALIH, Sayeed et al. Transforming education with AI: A systematic review of ChatGPT's role in learning, academic practices, and institutional adoption. Results in Engineering, v. 25, p. 103837, 2025. https://doi.org/10.1016/j.rineng.2024.103837 

SAMPERIO SÁNCHEZ, Nahum; LOAIZA ESPINOSA, Mayús; ARCOS MARTÍNEZ, María del Carmen. El uso de la inteligencia artificial en la elaboración de materiales didácticos para la enseñanza de lenguas. In: SEPÚLVEDA RODRÍGUEZ, Jesuan Adalberto; MOLINA RODRÍGUEZ, Raquel Itzel; AVITIA CARLOS, Patricia (coords.). Adopción de la inteligencia artificial y tecnologías digitales en la educación superior. Volumen 1. Hermosillo, México: Qartuppi, 2025, 98-107. https://qartuppi.com/educacion/inteligencia_1/

SOLAK, Ekrem. Revolutionizing language learning: How ChatGPT and AI Are changing the way we learn languages. International Journal of Technology in Education, v. 7, n. 2, p. 353-372, 2024. https://doi.org/10.46328/ijte.732

SOLAK, Ekrem. SOLAK, Ekrem. Redefining Language Education in the Digital Age: The ChatGPT Pedagogy. In: International Conference on Information and education Innovations (ICIEI-24), 2024, p. 23-28. https://www.researchgate.net/profile/Ekrem-Solak/publication/394420506_Redefining_Language_Education_in_the_Digital_Age_The_ChatGPT_Pedagogy/links/68983d48d3c4ac316e2f2f59/Redefining-Language-Education-in-the-Digital-Age-The-ChatGPT-Pedagogy.pdf 

 

Material relacionado 1: Podcast comentando estes materiais [link].   

Material relacionado2: Lista com artigos sobre IA no ensino de línguas e na educação [link].  


3 de out. de 2021

Modelos de Competência Digital Docente. Parte II

Na primeira parte desta série mostramos vários modelos de CDD: da UNESCO (2008), o modelo SAMR (Puentedura, 2013), a versão dele elaborada por Nicolau (2017), o modelo de Krumsvik (2011) e o modelo TPACK (de Mishra e Khoeler, 2006), somado à adaptação  do TPACK feita por Abio (2018) para o trabalho em um curso com infográficos.

Agora, nesta segunda entrega, apresentaremos o modelo proposto pelo CIEB (2019), assim como o modelo Four in Balance. Também o modelo PEAT (DICTE, 2019), o modelo MCompDigEAD de Silva (2018) e concluímos esta segunda parte com os padrões do ISTE (International Society for Technology in Education).

Parece muito? Na realidade, veremos mais modelos nas partes seguintes da série, mas vamos começar já, que o caminho é longo: 


7A - Modelo do CIEB

O Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB) lançou em maio de 2019 a nota técnica #15 'CIEB Notas Técnicas: “Autoavaliação de Competências Digitais de Professores”' (CIEB, 2019) e um Guia de Autoavaliação  em forma de ferramenta de autoavaliação on-line e gratuita, desenvolvida a partir de uma Matriz de Competências "que elenca o que é necessário para que o docente faça uso efetivo da tecnologia, tanto para suas atividades de ensino, no contexto escolar, quanto para sua própria aprendizagem, em seu processo de atualização e desenvolvimento profissional" (CIEB, 2019).

O guia de autoavaliação possui 23 perguntas que avaliam doze competências em total reunidas em três áreas: pedagógica, cidadania digital e desenvolvimento profissional (ver Figura):

fonte: https://guiaedutec.com.br/

Para avaliar o desenvolvimento de cada competência, foram elaborados cinco níveis de apropriação (exposição, familiarização, adaptação, integração e transformação) e seus respectivos descritores, que servem para evidenciar a progressão digital do docente.

Cada nível de apropriação é explicado da seguinte forma:

EXPOSIÇÃO - Quando não há uso das tecnologias na prática pedagógica ou quando o professor requer apoio de terceiros para utilizá-las. E também quando o uso é apenas pessoal. O professor identifica as tecnologias como instrumento, não como parte da cultura digital.

FAMILIARIZAÇÃO - O professor começa a conhecer e usar pontualmente as tecnologias em suas atividades. Identifica e enxerga as tecnologias como apoio ao ensino. O uso de tecnologias está centrado no professor.

ADAPTAÇÃO - As tecnologias são usadas periodicamente e podem estar integradas ao planejamento das atividades pedagógicas. O professor identifica as tecnologias como recursos complementares para a melhoria do processo de ensino e aprendizagem.

INTEGRAÇÃO - O uso das tecnologias é frequente no planejamento das atividades e na interação com os alunos. O professor trabalha com as tecnologias de forma integrada e contextualizada no processo de ensino e aprendizagem.

TRANSFORMAÇÃO - Quando o professor usa as tecnologias de forma inovadora, compartilha com os colegas e realiza projetos colaborativos para além da escola, mostrando-se maduro digitalmente. Ele identifica as tecnologias como ferramenta de transformação social (CIEB, 2019,  p. 14).


Cada nível de apropriação de competências digitais pode ser descrito em até três aspectos:

1) Fluência no uso de tecnologias digitais (são as evidências do uso de tecnologias no contexto pessoal e pedagógico);

2) Integração das tecnologias digitais ao currículo (evidências do uso de tecnologias alinhado aos documentos orientadores da rede de ensino e da escola);

3) Empoderamento dos alunos: evidências da participação ativa dos alunos nos processos de ensino e de aprendizagem com o uso de tecnologias) (CIEB, 2019, p. 15).

Este modelo de guia do CIEB pensado inicialmente para professores da Educação Básica foi adaptado e utilizado por primeira vez com docentes universitários na avaliação de competências digitais que realizamos na UFAL de forma emergencial em abril de 2020 e que foi respondida por 384 docentes.

Os resultados mostraram que a maioria dos professores da UFAL estavam  nos níveis de familiarização e adaptação no início da pandemia de COVID-19.


Por meio do acordo de cooperação técnica firmado com o Ministério da Educação (MEC), o Guia Edutec Diagnóstico foi integrado à plataforma digital do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE Interativo). Com isso, a ferramenta obteve, em 2022, seu maior número de respostas, alcançando 75% das escolas públicas brasileiras. A partir dos dados que foram extraídos desse período, o CIEB publicou o Relatório Guia Edutec - Diagnóstico do Nível de Adoção de Tecnologia nas Escolas Públicas Brasileiras em 2022, um retrato da adoção de tecnologias na educação pública brasileira.

7B- Modelo Four in Balance (KENNISNET)

Entre os modelos estudados por Almeida e Valente para o relatório para CIEB, os autores decantam-se pelo modelo Four in Balance, desenvolvido em 2001 pela Fundação TIC para a  Escola,  da  Holanda,  atualmente  conhecida como Fundação Kennisnet.

O modelo Four in Balance tem sido utilizado tanto no desenvolvimento quanto na avaliação de situações educacionais visando ao uso eficaz e eficiente das TIC na educação.

Ele é composto de dois elementos, humanos e tecnológicos, sendo que o elemento humano é constituído por dois eixos -visão e competência-; e o elemento tecnológico, pelos eixos conteúdos e recursos digitais, e infraestrutura

 Modelo Four in Balance, da Kennisnet (ALMEIDA, VALENTE, 2016, p. 31).


Os quatro eixos mencionados no modelo devem ser alcançados em uma perspectiva de equilíbrio entre eles e perpassados transversalmente por um eixo constituído por currículo, avaliação e pesquisa (p. 36).


Referências

ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini de; VALENTE, José Armando.  Políticas de Tecnologia na educação Brasileira. Histórico, lições aprendidas e recomendações. CIEB Estudos #4, 2016. http://cieb.net.br/wp-content/uploads/2019/04/CIEB-Estudos-4-Politicas-de-Tecnologia-na-Educacao-Brasileira-v.-22dez2016.pdf

BITTENCOURT, Ig Ibert; PIMENTEL, Fernando; SALMOS, Janaína; ABIO, Gonzalo. Avaliação diagnóstica de Competências Digitais de Professores(as) da UFAL. UFAL@Conectada; CIEB, NEES; Comunidades Virtuais Ufal, 2020.

Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB). Autoavaliação de Competências Digitais de Professores. CIEB Notas Técnicas # 15, 2019. http://cieb.net.br/wp-content/uploads/2019/06/CIEB_NotaTecnica15_junho_-2019.pdf

Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB). Relatório guia Edutec: diagnóstico do nível de adoção de tecnologia nas escolas públicas brasileiras. Centro de Inovação para a Educação Brasileira. São Paulo: CIEB, 2O22. https://cieb.net.br/wp-content/uploads/2022/12/2022-12-12-Relatorio-Guia-Edutec.pdf


8- Modelo MCompDigEAD (SILVA, 2018)

Silva (2018), também no contexto brasileiro, desenvolveu o chamado Modelo de Competências Digitais em Educação a Distância (EAD) (MCompDigEAD) que compreende três competências digitais: Alfabetização Digital, Letramento Digital e Fluência Digital, com  quatorze competências específicas detalhadas através dos conhecimentos, habilidades e atitudes (CHA), totalizando 328 elementos.

Este modelo foi desenvolvido pensando nos alunos que estudam na EaD, mas a compreensão do modelo pode ser útil também para o docentes.

fonte: Silva (2018, p. 205). Observação: o esquema foi levemente refeito para melhor visualização neste livro.

Neste modelo cada competência específica possui três níveis de proficiência: inicial, intermediário e avançado.

A autora oferece exemplos de casos de uso em cada nível de proficiência considerando o cenário dos alunos que estudam em cursos a distância, mas podemos pensar que este modelo pode ser utilizado também em qualquer cenário de ensino híbrido.

Na realidade este modelo parece muito útil, mas ainda não é muito conhecido.

No caso do nível superior do modelo, chamado pela autora de Fluência Digital, aparecem cinco competências específicas (produção de conteúdo, proteção de dados, convivência em rede, resiliência virtual e trabalho em equipe).

Por exemplo, no item correspondente com a "Criação e desenvolvimento de conteúdo digital" aparecem nos três níveis de proficiência os seguintes elementos:


Referência

SILVA, Ketia Kellen Araújo. Modelo de Competências Digitais em Educação a Distância: MCompDigEAD – Um foco no aluno. Porto Alegre, 2018. 279f. Tese (Doutorado em Informática na Educação) – Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2018. https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/180549

SILVA, Ketia Kellen Araújo da; BEHAR, Patricia Alejandra. MCompDigEaD. Modelo de Competências Digitais em Educação a Distância com foco no aluno. Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação, Universidade Federal  do Rio Grande do Sul, Nuted, 2018. http://nuted.ufrgs.br/MCompDigEAD.pdf

 

9- Modelo PEAT do grupo DICTE

O nome do modelo PEAT  provêm das dimensões incluídas nele: Pedagógica, Ética, Atitudinal e Técnica (PEAT).

Este modelo foi desenvolvido pelo grupo DICTE (Developing ICT in Teacher Education), um grupo formado por pesquisadores da Noruega, Espanha, Malta e Irlanda.

Este modelo PEAT conceitualiza a competência digital de professores e alunos por meio de quatro dimensões igualmente importantes.

A dimensão pedagógica incorpora práticas pedagógicas que a tecnologia pode oferecer a diferentes disciplinas específicas, como também a práticas profissionais mais amplas.

A dimensão ética inclui questões relacionadas à privacidade, direitos autorais, críticas sobre as fontes utilizadas, liberdade de expressão e ética pessoal relacionada ao entendimento e uso profissional da tecnologia digital.

A dimensão atitudinal inclui a capacidade de adotar e adaptar novas tecnologias em um contexto profissional, para poder usar de forma criativa as tecnologias digitais como apoio a processos de ensino e aprendizagem ou em contexto profissional, além de formar uma profunda compreensão do papel das tecnologias digitais na sociedade.

A dimensão técnica refere-se às habilidades práticas e competências necessárias para usar software e hardware em situações educacionais específicas, bem como ao entendimento de redes tecnológicas e ao conhecimento de como os dispositivos digitais operam e se comunicam entre si.

Referências

DICTE. Pedagogical, Ethical, Attitudinal and Technical dimensions of Digital Competence in Teacher Education. Developing ICT in Teacher Education Erasmus+ project, 2019. https://dicte.oslomet.no/2019/11/03/dicte/


10- ISTE - International Society for Technology in Education

ISTE  - Standards for educators

O   referencial   da  International Society for Technology in Education (ISTE), possui um roteiro informativo para educadores de todo o mundo, visando apoiar nas decisões sobre currículo, ensino ou aprendizagem profissional   e   sugerindo   como   transformar   as   práticas   pedagógicas   para   uma aprendizagem mais significativa, com o apoio das tecnologias.

O objetivo amplo   do   documento   é   o   de  desenvolver  e   partilhar,   mundialmente,  padrões   de competências digitais para aprender, ensinar e liderar na era digital. O documento apresenta sete padrões que são indicativos do papel dos educadores como agentes de mudança para a aprendizagem.

Na representação a continuação podemos ver do lado esquerdo os padrões ISTE para educadores, enquanto no lado direito estão que são para os estudantes.


Referências

LOUREIRO, Ana Claudia; MEIRINHOS, Manuel; OSÓRIO, António José. Competência digital docente: linhas de orientação dos referenciais. Texto Livre: Linguagem e Tecnologia, v. 13, n. 2, jul. 2020. http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/textolivre/article/view/16909

ISTE. Padrões ISTE (em português)

ISTE. Condições essenciais para aproveitar a tecnologia de forma efetiva para a aprendizagem (inglês ou espanhol).


Postagens relacionadas:

Modelos de Competência Digital Docente. Parte I

2 de out. de 2021

Modelos de Competência Digital Docente. Parte I

Como percebo que existe um aumento de interesse sobre o tema das competências digitais vou reunir aqui em várias postagens alguns modelos de Competência Digital Docente (CDD) tentando oferecer uma panorâmica sobre este tema.

No caso dos documentos estrangeiros tentarei oferecer as versões que existem em português. Em alguns casos eu fiz as traduções. No final de cada modelo colocarei as referências correspondentes.  

Penso que  este apanhado de modelos pode ajudar para ter uma visão rápida do tema e da diversidade de opiniões e linhas de trabalho que existem. Não é necessário que um docente tenha que aprender tudo isto, mas este conhecimento pode promover uma reflexão de cada um para melhor embasar as práticas atuais ou futuras.

Nesta primeira postagem vamos ver quatro modelos de CDD e duas versões adicionais.

• Modelo de Competência Digital Docente da UNESCO (2008)

• Modelo SAMR de Puentedura (2013)

• Modelo SAMR.br de Nicolau (2017)

• Modelo de Krumsvik (2011)

• Modelo TPACK (CTPC) de Mishra e Khoeler (2006)

• Modelo TPACK modificado como CTSPC de Abio (2019).


1- Modelo da UNESCO

Começamos nosso percurso com o modelo de Competências Digitais do Docente da UNESCO (ICT  Competency Standards for Teachers) publicado em 2008.

Podemos considerar este como um dos primeiros modelos. A versão em português chegou um ano depois, em 2009.

Integram a matriz deste modelo seis componentes do sistema educacional (política, currículo, pedagogia, TIC, organização e treinamento de docentes) e possui três níveis de desenvolvimento:

alfabetização em tecnologia,

aprofundamento do conhecimento, e

criação de conhecimentos

Em cada componente da matriz há metas curriculares específicas e habilidades esperadas dos docentes.  

PARA PENSAR: 

COMO EU ESTOU AGORA EM RELAÇÃO COM O DOMÍNIO DE CADA UM DESSES ELEMENTOS?

Observe abaixo, na matriz do modelo da UNESCO, os seis elementos da coluna esquerda e pense em qual nível você acha que está neste momento (alfabetização, mais básico, aprofundamento, que seria um nível intermediário, ou no nível mais elevado de criação de novos conhecimentos.


Recomendo que depois dessa breve atividade reflexiva veja com calma nesse documento a partir da página 34 as descrições que aparecem para cada nível de domínio (alfabetização em tecnologia, aprofundamento do conhecimento, e criação de conhecimentos) em cada um dos elementos da matriz.

Referência

UNESCO. Padrões de competência em tic para professores: módulos de padrão de competência [trad. de: ICT competency standards for teachers: competency standards modules, 2008]. Paris: UNESCO, 2009. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000156207_por


2- O Modelo SAMR



O Modelo SAMR "é amplamente utilizado pelos profissionais, provavelmente devido ao fato de que é geralmente compatível com práticas existentes e orienta educadores por meio de quatro fases ou estágios hierárquicos de adoção tecnológica" (VELETSIANOS, 2016, p. 55).

O modelo SAMR de Puentedura (2013), possui quatro níveis de aproveitamento das tecnologias: substituição, ampliação ou aumento, modificação e redefinição.

No primeiro, o mais básico, de substituição, a tecnologia é uma ferramenta como substituto direto sem trazer mudanças funcionais.

No nível de aumento, a tecnologia também é uma ferramenta direta, mas com algum aumento nas funções.

No caso da modificação, a tecnologia já permite um redesenho ou modificação significativa das tarefas e, por último, no nível de redefinição, a tecnologia permite a criação de novas tarefas que antes não podiam ser realizadas.

Muitos estudos mostram que os professores costumam utilizar as tecnologias nos níveis mais básicos de aproveitamento, isto é, nos níveis de substituição ou aumento.

Estes níveis de uso correspondem com as primeiras etapas de apropriação tecnológica que Moran (2007) descreve de forma diferente como "tecnologias para fazer melhor o mesmo", utilizando a tecnologia para melhorar o que já existia, enquanto na segunda etapa seria o uso das "tecnologias para mudanças parciais. Na terceira etapa, de uso das "tecnologias para mudanças inovadoras", muitos poucos chegam (MORAN, 2007, p. 90-93).

Referências

MORAN, José Manuel. A educação que desejamos. Novos desafios e como chegar lá, Campinas: Papirus Editora, 2007.

PUENTEDURA,  R. R. SAMR and TPCK: An introduction. Hippasus, 2013. http://www.hippasus.com/rrpweblog/archives/2013/03/28/SAMRandTPCK_AnIntroduction.pdf

VELETSIANOS, George (Ed.). Emergence and Innovation in Digital Learning: Foundations and Applications. Edmonton: Athabasca University Press, 2016. https://doi.org/10.15215/aupress/9781771991490.01

3- O Modelo SAMR.br

O autor brasileiro Nicolau (2017) propõe uma modificação no modelo SAMR original de Puentedura, que denominou como SAMR.br.

Ao invés de nível do modelo original, nesta modificação prevalece o termo categoria e as categorias são dispostas em um mesmo plano.

A terminologia é menos hierarquizante, evitando que sejam colocadas práticas pedagógicas com e sem uso das TDIC em posições antagônicas. Além disso, a classificação de usos foi estendida para o contexto da vida particular, a fim de serem estudadas eventuais relações entre usos particulares e educativos das tecnologias.

PARA PENSAR:

De qual modelo você gostou mais?

Do SAMR original de Puentedura ou da adaptação para o SAMR.br de Nicolau?   

Referência

NICOLAU,  Ricardo.  SAMR.br: um modelo para análise de usos educativos de tecnologias da Era Digital. In: Anais do Workshop de Informática na Escola (WIE 2017), 2017. p. 155-164. DOI: http://dx.doi.org/10.5753/cbie.wie.2017.155 


4- Modelo de Krumsvik (2011)


O modelo de competência digital para professores e formadores de professores proposto por Krumsvik (2011) possui quatro componentes principais: competências digitais básicas, competência didática com as TIC, estratégias de aprendizagem e cultura digital (Digital Bildung).



Segundo Krumswik (2011), as competências ou habilidades digitais básicas, primeiro componente do modelo, são cada vez mais familiares e transparentes para os professores, quando comparados com anos anteriores, pois tem-se intensificado e naturalizado o uso dos dispositivos digitais por parte dos docentes.

A competência didática com as TIC, que corresponde a segundo componente do modelo, é uma relação dialética entre fazer e pensar o uso educacional das TIC. São essenciais ao trabalho docente e deve ser fornecido o apoio necessário para sua compreensão e uso por parte dos professores em cursos de formação de professores.

O terceiro componente do modelo, de estratégias de aprendizagem, compreende os anteriores, mas enfatiza as estratégias de aprendizagem no panorama pedagógico atual cada vez mais multimodal.

Por último, a cultura digital (Digital bildung), focaliza no desenvolvimento da identidade digital e participação dos alunos de forma crítica, ética e eficaz nas diferentes comunidades e mídias sociais, de forma que sejam conscientes das implicações sociais da vida digital (KRUMSVIK, 2011, p. 46-7). 

A imagem inicial foi enriquecida por Pérez Scoda (2015) e traduzida por Abio para este livro.

A imagem original de Krumsvik é esta:

Durán Cuartero, Gutiérrez Porlán e Prendes Espinoza (2016), com foco na competência digital do professor universitário e com base em diversos autores, entre eles, Krumswik (2011), entendem a competência digital como um "conjunto de valores, crenças, conhecimentos, capacidades e atitudes em aspectos tecnológicos, informacionais e comunicativos que conduzem a um letramento múltiplo complexo" (p. 99). Acrescentam ainda que a competência digital docente reúne todos esses aspectos da competência digital, somado ao critério pedagógico ­didático para a integração efetiva desses elementos no processo de ensino-aprendizagem, para o qual citam o conceito de competência digital específico para os professores proposto por Krumswik (2011):

A competência digital é a proficiência do professor/formador de professores no uso das TIC em um contexto profissional com um bom critério pedagógico-didático e com uma compreensão/ consciência das implicações para as estratégias de aprendizagem e vida digital dos estudantes (KRUMSVIK, 2011, p. 44-5).

Referências

DURÁN CUARTERO, Marta; GUTIÉRREZ PORLÁN, Isabel; PRENDES ESPINOSA, María Paz. Análisis conceptual de modelos de competencia digital del profesorado universitario. RELATEC. Revista Latinoamericana de Tecnología Educativa, v. 15, n. 1, p. 97-114, 2016.  http://relatec.unex.es/article/viewFile/2490/1745

KRUMSVIK, Rune Johan.  Digital competence in Norwegian teacher education and schools. Högre Utbildning, v. 1, n. 1, p. 39-51, 2011. https://hogreutbildning.se/index.php/hu/article/view/874

PÉREZ-ESCODA, Ana. Alfabetización digital y competencias digitales en el marco de la evaluación educativa: estudio en docentes y alumnos de Educación Primaria en Castilla y León. Tesis doctoral. Universidad de Salamanca, 2015. https://gredos.usal.es/handle/10366/128252


5- Modelo TPACK (CTPC)

O modelo TPACK ou modelo de Conhecimento Tecnológico-Pedagógico de Conteúdo (CTPC) é um dos modelos mais conhecidos e utilizados.

Ele parte das propostas iniciais de Shulman (1987) e Grossman (1990), e assevera que todo professor deve construir, em diversos níveis e interações, os seguintes conhecimentos:

1) o conhecimento pedagógico geral (CP)

2) o conhecimento do conteúdo (curricular) (CC)

3)  o conhecimento pedagógico do conteúdo (CPC)

4)  o conhecimento do contexto.

Para saber ensinar, o professor precisa ter um conhecimento pedagógico-científico situado, incluindo conteúdos ensináveis em contextos específicos, tendo em vista os aspectos sócio-culturais dos alunos.

Torna-se necessária a integração desses conhecimentos contextualizados ao que é chamado de Conhecimento Pedagógico de Conteúdo (CPC), em referência aos conteúdos que devem ser didatizados para serem trabalhados nas práticas pedagógicas planejadas para esse fim.

O modelo de Conhecimento Tecnológico Pedagógico de Conteúdo (TPACK ou CTPC) adiciona ao modelo inicial de Shulman dois aspectos importantes: o conhecimento de uso e da aplicação das tecnologias (ver Figura).

fonte da imagem: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/20/TPACK_pt-BR.png


O Conhecimento Tecnológico Pedagógico de Conteúdo (CTPC) ocorre na interseção de todos os outros componentes, influenciado em seu conjunto pelo contexto existente.

Assume que o professor seja capaz de integrar os conhecimentos que tem sobre a matéria que deve ensinar, com os métodos didáticos mais adequados à situação concreta dos alunos, ou seja, refere-se a como integrar a tecnologia para ensinar (melhor) um conteúdo concreto em um determinado contexto.

Segundo Maneira (2016), o modelo TPACK concebe-se como um novo olhar sobre o processo de integração da tecnologia aos saberes docentes, sobretudo pela reflexão que pode instigar às propostas de formação tão fragmentadas e carentes de estrutura e fundamentação em relação à pedagogia, ao conteúdo e à tecnologia (MANEIRA, 2016, p. 174).

Este modelo exibe fecundidade por ter sido adotado por diversos pesquisadores e profissionais de diversas disciplinas. Como o TPACK reconhece a importância do conhecimento de conteúdo na integração tecnológica, especialistas em diferentes áreas podem se sentir confortáveis em usá-lo como modelo, pois valida a importância de suas áreas de atuação. Inúmeras investigações têm sido realizadas conectando o modelo TPACK às crenças e atitudes dos professores, e uma ampla gama de organizações profissionais e números especiais de periódicos sugerem que o modelo tem sido fecundo na criação e manutenção de conversas significativas sobre integração tecnológica (VELETSIANOS, 2021, p. 58-59).

Pelo potencial integrador, este modelo TPACK é aproveitado na proposta do modelo  4As (Apresentação, Abertura, Aprofundamento e Apropriação) de Casanova (2020) ou adaptado no modelo CTSPC (TPACK modificado) por Abio (2019) que veremos a continuação.

Referências

CASANOVA, Diogo. Um modelo de design educacional para ambientes mistos e EaD. Revista EmRede. Revista de Educação a Distância, v. 7, p. 4-20, 2020. https://www.aunirede.org.br/revista/index.php/emrede/article/view/571

GROSSMAN, P.L. The making of a teacher: Teacher knowledge and teacher education. New York: Teachers College Press, 1990.

MANEIRA,  Simone. Um olhar sobre o Modelo Tpack à luz do pensamento de Paulo Freire. In: Atas do IV Congresso Internacional TIC e Educação 2016 "Tecnologias digitais e a escola do futuro", Lisboa, Portugal, 8 a 10 de Setembro de 2016. Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, 2016. p. 171-183. https://cld.pt/dl/download/876b2f28-c5ea-42b8-ace5-5c94719d9127/Livro_Atas.pdf

MISHRA, P. Considering Contextual Knowledge: The TPACK Diagram Gets an Upgrade. Journal of Digital Learning in Teacher Education, v. 35, n. 2, p: 76–78, 2019. https://doi.org/10.1080/21532974.2019.1588611

MISHRA, P.; KOEHLER, M. J. Technological pedagogical content knowledge: A framework for teacher knowledge. Teachers College Record, v. 108, n. 6, p. 1017–1054, 2006.  http://onlinelearningcurriculumcommittee.pbworks.com/f/mishra.pdf

SHULMAN, L S. Knowledge and Teaching: Foundations of the new reform. Harvard Educational Review, v. 57, p. 1-22, 1987.

TPACK. In: Wikipédia. A enciclopédia livre, s.d. https://pt.wikipedia.org/wiki/Tpack

VELETSIANOS, George (Ed.). Emergence and Innovation in Digital Learning: Foundations and Applications. Edmonton: Athabasca University Press, 2016. https://doi.org/10.15215/aupress/9781771991490.01


6- TPACK modificado como CTSPC

Abio (2018, 2019) elaborou uma proposta de enriquecimento do modelo, com atenção para as necessidades de conhecimentos dos docentes no trabalho com materiais pedagógicos multimodais como são os infográficos.

Na adaptação do modelo, em cada um dos três conhecimentos que compõem o modelo original – Conhecimento Tecnológico, Conhecimento Pedagógico e Conhecimento de Conteúdo – foram incorporados dois níveis diferentes de domínio. O mais básico está sinalizado em um box de cor azul, e o mais  avançado em um box de cor verde, situado mais perto da parte central onde se encontra o CTSPC (Conhecimento Tecnológico Semio-Pedagógico de Conteúdo).

fonte: Abio (2019)


Por exemplo, em termos do Conhecimento Tecnológico, o docente deve saber usar editores de texto, de desenho e de apresentações em um nível normalmente um pouco mais avançado que o que ela já sabe na atualidade, pois os docentes devem ir realizando tarefas que o capacitem para a criação de documentos multimodais efetivos e atraentes, mais sintonizados com as necessidades e interesses dos estudantes de hoje.

Em relação ao Conhecimento de Conteúdo, devem aprender a reconhecer e trabalhar não apenas com infográficos, como também com outros gêneros multimodais, como, por exemplo, frases ilustradas com fotos, memes ou outros tipos de micronarrativas visuais e campanhas publicitárias diversas, como também saber ensinar sobre esses gêneros multimodais. Materiais didáticos baseados apenas em textos longos e que não incorporam outros recursos semióticos não são atrativos e não promovem a atenção e o engajamento.

As vivências de aprendizagem, dele como professor e também do professor com seus alunos, a partir de materiais multimodais ou multissemióticos devem ser ordenadas de forma crescente,  dos mais conhecidos ou facilmente reconhecíveis até os menos conhecidos ou mais complexos. O Conhecimento Pedagógico deve incluir também um conhecimento sobre a realização de projetos e implementação da pedagogia dos multiletramentos.

Na área central do modelo, a interseção dos três conhecimentos delimita o Conhecimento Tecnológico Semio-Pedagógico de Conteúdo (CTSPC),  influenciado, também, pela capacidade de design do professor e pelas condições tecnológicas disponíveis, sem ignorar as diferenças individuais e os contextos em que atua. 

Estes conhecimentos e competências, como também o desejo e a autonomia podem ser considerados princípios ativos do desempenho docente, pois o saber fazer, poder fazer e querer fazer estão acoplados, conforme salienta Mallmann (2008) na seção conclusiva de sua tese de doutorado.

Referências

ABIO, Gonzalo. Infográficos para ensino de LE/LA? Análise de materiais didáticos, design e desenvolvimento de um curso para formação de professores de espanhol no contexto brasileiro da Educação Básica. tese (doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Letras, 2019. http://www.poslin.letras.ufmg.br/defesas/1467D.pdf

ABIO,  Gonzalo. Formación digital de profesores. Una revisión del tema con énfasis en los modelos de competencias/literacidades digitales. Caracol, n. 13, p. 20-55, 2017.  https://www.revistas.usp.br/caracol/article/view/122901

MALLMANN, Elena Maria. Mediação pedagógica em educação a distância: cartografia da performance docente no processo de elaboração de materiais didáticos, Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências da Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação, 2008. https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/91842

MISHRA, P.; KOEHLER, M. J. Technological pedagogical content knowledge: A framework for teacher knowledge. Teachers College Record, v. 108, n. 6, p. 1017–1054, 2006.  http://onlinelearningcurriculumcommittee.pbworks.com/f/mishra.pdf

Com esta primeira postagem iniciamos a exposição de vários modelos de CDD, mas como são muitos, continuaremos nas postagens seguintes (Parte 2 e Parte 3).

Até logo.

9 de mai. de 2020

Resumo do webinário "Novos Cenários de aprendizagem. Chegaram para ficar"

Pela importância e atualidade, divulgarei as anotações que fiz sobre os pontos principais de um webinário realizado no dia 7 de maio por três pesquisadores muito conhecidos da Universidade de Sevilha (Julio Cabero , Oscar Gallego e Manuel Serrano). Seu título em espanhol é "Nuevos Escenarios de Aprendizaje. Han Venido para quedarse."


1- Adaptação a novos ambientes de aprendizagem (Julio CABERO ALMENARA) (5:10min - 27:34min do vídeo),
2- Design de cenários virtuais para a aprendizagem (Oscar GALLEGO PÉREZ) (27:35min - 39:24 min),
3- Ferramentas tecnológicas nos atuais cenários formativos (Manuel SERRANO HIDALGO) (39:25min - 50:32min).
------------


1-  Adaptação a novos ambientes de aprendizagem. 
Palavras de Julio Cabero (5:10 min - 27:34 min):

A sociedade está mudando. A educação está mudando também?

Antes tudo estava controlado. Professor ensinava e aluno era um
receptor passivo de informação. Não mais, o cenário está mudando

Grandes Transformações:
- grande volume de informação
- período formal de instrução
- vivemos em uma sociedade de aprender a aprender
- durabilidade menor dos conteúdos
- se aprende em diferentes cenários
- as instituições escolares estavam pensadas para dar respostas corretas e duradouras.
Os informes Horizon que previam as tecnologias emergentes como se incorporariam, foram se incorporando, mas existe uma importante brecha digital.
Algumas dessas tecnologias significativas emergentes são:
- a computação em nuvem
- as analíticas de aprendizagem
- ambientes pessoais de aprendizagem
- aprendizagem móvel, ubíquo (através dos celulares)
- realidade aumentada e realidade virtual
- estratégias como ensino invertido, estudo de caso, projetos, etc.
- robótica (por exemplo para STEM)
- gamificação
- b-learning e e-learning 2.0

Hoje o docente se encontra e uma nova situação muito diferente daquele docente da sociedade pós-industrial.

A tecnologia permite criar um ecossistema de formação enriquecido pelas tecnologias. Não podemos desperdiçar estas possibilidades para formar a nossos estudantes.

O importante é incorporar tecnologias desde um ponto de vista educativo e não puramente técnico, não para fazer as mesmas coisas.

Temos que utilizar as tecnologias para desenhar novos cenários de aprendizagem diferentes e mais interessantes para nossos alunos e que lhes permitam fazer muitas mais coisas
. As tecnologias permitem como mínimo três coisas: (1) cenários enriquecidos pelas tecnologias (2) ampliar os cenários de formação. Agora temos a necessidade de trabalhar com as tecnologias e (3) a tecnologia permite trabalhar em coisas mais dinâmicas (síncronas e assíncronas).

Devemos ampliar a dimensão das TIC ou TDIC para as TAC ou TEP.*

As tecnologias serão importantes de acordo a como o professor as percebe. As CDD (Competências Digitais do Docente) não significam que o professor desde um ponto de vista técnico saiba utilizar as tecnologias. Existem muitas diferenças entre  uso das tecnologias no âmbito pessoal e no âmbito pedagógico.
 

A CDD não é o manejo instrumental das TIC.


2- Design de cenários virtuais para a aprendizagem 


Palavras de Oscar Gallego (27:35min - 39:24 min):
 

Não é reutilizar simplesmente os mesmos materiais das aulas presenciais.

As disciplinas que são utilizadas em um campus virtual devem ter que considerar estes pontos importantes:


1- sempre devem ter uma introdução à temática
2- declarar os conteúdos e competências
3- acompanhar com um mapa conceitual
4- conteúdos (um tipo de cenário)
5- e-atividades (outro tipo de cenário)
Qual utilizamos, baseados em conteúdos ou por e-atividades?
E-atividades permitem uma participação mais ativa do aluno e desenvolvimento de outras habilidades.
Recursos (audio, vídeo, animações, multimedia, ilustrações, web e simuladores) Polimedia (apoiado em vídeo, power point, simulações, etc.)
 

Digitalizar não é igual que virtualizar uma disciplina.
 

O primeiro deve ser a metodologia, não a tecnologia. 

Devemos pensar primeiro na metodologia para pensar depois em qual tecnologia vamos usar em função dessa metodologia.

Utilizamos a melhor tecnologia para o objetivo que tenha sido planejado.


3- Ferramentas tecnológicas nos atuais cenários formativos
Palavras de Manuel Serrano (39:25 min - 50:32 min):

- Importância da formação
- As ferramentas são subordinadas à formação
- Seleção adequada em cada situação
- Uso personalizado

- Autonomia pessoal na criação de conteúdo
- Ferramentas para professores e alunos (oficiais)
- uso da web 2.0
- Criação de conteúdo e avaliações em ambientes virtuais
Ferramentas para avaliações são muito solicitadas neste tempo de final de semestre em tempo de pandemia (por exemplo a central de avaliações [do Moodle?])

Qual ferramenta utilizar? (são muito variadas)

Pílulas formativas
webinars
cursos específicos
cursos de pósgrado

-----------------------

* Se ficou curioso com as abreviaturas TAC e TEP, recomendo ver "Sobre TIC e outras siglas parecidas" neste mesmo blog.